12 de jul. de 2009

Thandika Mkandawire sera o primeiro “Chair in African Development” da LSE

No mês de setembro, o economista Thandika Mkandawire se tornara o primeiro “Chair in African Development” da London School of Economics and Political Science (LSE).

Cidadão suíço, natural do Malawi, o Professor Mkandawire foi Diretor do Instituto de Pesquisa em Desenvolvimento Social da ONU (www.unrisd.org) de 1998 a 2009 – em poucas palavras: um dos três principais centros de pesquisa do mundo, com publicações e estudos que desafiaram o “status-quo” e contribuiram para o progresso da agenda em desenvolvimento socioeconomico. A nova empreitada e parte integrante da “African initiative,” recém formulada pela LSE com o objetivo de revigorar o foco de sua pesquisa e posicionar a África no centro das ciências sociais, re-direcionando os holofotes públicos globais.

Sem duvida, esse e um casamento para se-comemorar.

As águas vão rolar....

27 de jun. de 2009

Etiópia: fatos, boatos e impressões (Parte II)


Investimentos, desigualdade e boa fé: Do café para os investimentos, Addis Abeba esta vivendo um recente “boom” de capital estrangeiro. No ano de 2007, o índice de performance de IED* no pais chegou a 92, frente a 91 no México, 88 na China e 97 no Brasil. De acordo com os numeros e boatos, os chineses e indianos estão com a bola da vez: dos 328 investimentos estrangeiros no pais, 30% são chineses, comparados a discreta fatia de 8% do "tio sam" e ao 1,8 bilhoes de dolares investidos peloas 153 empresas indianas operando no pais. Assim, ja se faz possível notar prédios e mais prédios sendo construídos cidade afora, e gruas rasgando o horizonte na “Ethio-China Road”, construída, segundo os etíopes, em tempo recorde por mão-de-obra inteiramente "made in China”; bem, como hora e outra, se deparar con conterrâneos de Gandhi pelas ruas e casas noturnas da cidade.

No galope do crescimento Etíope (apesar de descrecente, positivo), fato é que a desigualdade e pobreza também são marcantes. Com exceção da sua majestade o Primeiro Ministro que governa o pais desde 1991 em um regime de semi-ditadura, de dezenas de atletas corredores etíopes que fizeram seu pé de meia com suor e muita correria, dos expatriados da cooperação internacional e mais um bocado de empresários aliciados pelo governo, 76% da população é monetariamente pobre e vive com menos de dois dólares ao dia. Entretanto, como quaisquer outros paises desiguais que se preze, a cidade tambem tem seus Oásis de apparteid social: Hilton, seu mercadinho de delicatessen e maquinas de ATMs, o Boston Spa Club e suas dezenas de opções de massagens, três shopping centers, resturantes para dar e vender, e a disputada piscina do Sheraton nos fins de semana - pela bagatela de 180 biir (moeda local) ao dia, equivalente a 20 dólares americanos (preço do ônibus: 0,70 birr/cafezinho: 3 birr/ boate local: 20 birr).

Familia de "camponeses-mirins" subindo a "Montanha-lar" Ashtam Maryam (a 2.400 m)

Assim sendo, ai é que esta mais uma incrível peculiaridade e riqueza da Etiópia: seu povo (seguido pela culinária que merece um capitulo a parte) e comportamento, que desmonta muitas teorias acadêmicas e “policies” de agencias multilaterais sobre pobreza. Fato é, que em Etiópia, apesar do alto índice de extrema pobreza, e de certa forma, miséria; as taxas de criminalidade e violência são praticamente zero. E isto não é apenas baseado em dados ou econometria dos “cabeças de planilha” de plantão (como diria Luis Nassif), mas, andar pelas ruas de Addis, seja homem ou mulher, etíope ou estrangeiro, a qualquer hora do dia ou da noite é normal e corriqueiro, esteja o sujeito de terno com laptop em baixo dos braços, ou de chinelo pastoreando seu rebanho de cabritos pelas ruas da cidade.

Arriscaria dizer que o que esta por tras dessa façanha rua afora é a religiao e principios morais verdadeiramente arraigados na sociedade. Em Etiópia, mulçumanos e cristãos fazem suas rezas, pedem suas bênçãos, adoram seus deuses, e são vizinhos, amigos, conhecidos e desconhecidos, numa cidade onde a maioria é cristão efervescente (ortodoxo, católico e evangélico), mas tambem, onde em todas as matinas e fins de tarde o soar das mesquitas e seus alto-falantes dão o ar da graça e se fazem escutar a metros e kilometros de distancia - como que em um chamado e uma comunhão, celebrando o respeito à diversidade e dando tom a letra do compositor pernambucano Lula Queiroga: “Cada ser tem sonhos a sua maneira”...

* IED = Investimentos Estrangeiros Diretos

** Fotos: arquivo pessoal

*** Em breve: partes III e IV

Etiópia: fatos, boatos e impressões (Parte I)


Passados mais de um bocado de 30 dias, Etiópia, Addis Abeba e o ex-reino do Rastafari Alie Silassie (1930-1974) me permitem rascunhar as primeiras impressões, “causos” e estórias de uma estória não contada, mas que esta por ai, no dia-a-dia, nas esquinas da capital e nos arredores das montanhas de Derba.

Evento na praca central de Addis Abeba durante o principal feriado religioso do pais

Pelo começo: De acordo com os livros de historia, Etiópia é um dos berços da civilização, e o inicio da Dinastia Etiopie é oficialmente reconhecido quando do reinado do Imperador Meleniki em 1000 AC. Segundo o Lonely Planet: “Human life as we know started in this part of África”.

Único dos 53 paises Africanos não colonizado e sede do maior numero de sítios de patrimonio historico da Humanidade (UNESCO), Etiopia foi o segundo pais no mundo a adotar oficialmente o cristianismo (século 4 AC). E, hoje, faca chuva ou faca sol, pode-se sentir a brisa fria nos fins de tarde percorrendo as ruas da cidade, embalada por um misticismo que se faz perceber do amanhecer ao por do sol.

Dito pelo não dito, fato é que foi em Etiópia que Lucy, a múmia de 3.2 milhões de anos, deu o ar da graça em 1974 e foi batizada em homenagem a musica que então soava no acampamento dos arqueólogos no momento da descoberta “Lucy in the sky with Diamonds”... Das entranhas etíopes para o Museu Nacional de Addis Abeba, e neste momento, numa tour pelas principais cidades americanas, Lucy trouxe o link que faltava para a tese de Darwin e outros tipos de holofotes a nação etiópie - que não o fim do regime socialista em 1984 ou o episodio da seca e fome que assolou o pais em 1985, matando centenas de mil pessoas e trazendo um novo costume e etiqueta a mesa etíope: o de nunca se terminar uma refeição por inteiro, mas sempre deixar algo no prato, como símbolo para afastar a fome e abençoar a fartura.

O Pais e seu café: Etiópia é o segundo pais mais populoso da Africa, com 73 milhões de habitantes, dos quais 3 milhões residem, trabalham e perambulam pela capital Addis Abeba ou “Nova flor”, situada a 2.400m de altitude. O café, por sua vez, alem de ser responsável por 20% da receita governamental e 60% da receita total de exportação do pais (sobretudo para EUA, Europa e Ásia), é referenciado diariamente nos quatro cantos do mundo, e representa, direta ou indiretamente, o principal “meio de vida” para um de cada quatro etíopes.

Logo da rede de cafes Kaldi's : A Starbucks local

Encorpado e com uma cor preta de café torrado, como se tivesse já passado do ponto, o café etíope é definitivamente uma iguaria. E todo boteco de esquina, bar, escritório e restaurante que queira se fazer prezar, prepara um bom café com direito a todas as suas variáveis (au lautte, capuccino, machiatto) que é de deixar as melhores cafeterias de Londres e São Paulo, como costumamos dizer: “no chinelo”.

E não e a toa que um dos rituais mais conhecidos e honrados por aqui é a “cerimônia do café”, que acontece todos os dias por volta das seis da tarde e literalmente consiste em se sentar em roda com amigos em torno de um pequeno suporte com carvão e madeira onde os grãos de café são esquentados lentamente num bule de ferro, depois de serem triturados ali mesmo - na hora, pela fazedora de café de plantão. Uma vez que a cumbuia começa a expelir os primeiros rastros de fumaça e aroma, o café esta quase pronto para ser apreciado, basta então sacar a bendita do fogo e deixar o pó baixar.... (.) Ja “assentado”, ele é servido diretamente as xícaras, sem coar nem nada, um dos segredos do seu sabor. O ritual dura cerca de 30 minutos, e o café é sempre servido com uma boa porção de pipoca (!) ...Mas, para dizer para que veio, não basta uma só xícara, como parte do ritual, o conviva deve saborear 3 xícaras do bendito fruto, enquanto papo vai-papo-vem, e enquanto se observa a “cerimônia desse grão sagrado”: a brasa queimar, a cafeteira cuidar zelosamente do seu preparo e o bule expelir sua fumaça como que em sinal de celebração e graca...

* Fotos: arquivo pessoal